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Chasque do Menestrel

Quem trouxe as bruxas para o Rio Grande?

Por: Sam Martin de Araujo Publicado em 03/07/2026 às 12:15
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Tem frases que a gente aprende sem ninguém ensinar.

Elas chegam pelos ouvidos ainda na infância, numa roda de chimarrão, na varanda da casa dos avós, no balcão da venda ou na conversa mansa de quem sempre tem um bom causo para contar.

E basta surgir uma história diferente para que alguém, com um sorriso de canto de boca, solte a velha sentença:

— Eu não acredito em bruxas... mas que elas existem, existem!

Quem ouve pensa que a frase nasceu por aqui, criada por algum campeiro desconfiado ou por uma benzedeira da campanha. Afinal, ela combina com o jeito do gaúcho de escutar mais do que falar e de nunca duvidar completamente daquilo que os olhos não enxergam.

Mas essa história começou muito antes de cruzar o Atlântico.

O ditado nasceu na Espanha, mais precisamente na Galícia, terra de neblinas, montanhas e antigas tradições. Lá, as chamadas meigas faziam parte da vida do povo. Eram mulheres conhecedoras das ervas, das rezas e dos costumes passados de geração em geração. Para alguns, curavam. Para outros, enfeitiçavam. E havia quem preferisse não tomar partido.

Foi então que surgiu uma frase simples, dessas que carregam mais sabedoria do que muitas páginas de livros:

"Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay."

O tempo fez o restante do serviço.

A expressão atravessou oceanos, desembarcou na América e encontrou terreno fértil entre argentinos, uruguaios e paraguaios. Da mesma forma que vieram costumes, músicas, receitas e palavras, também vieram os ditados. E o Rio Grande do Sul, acostumado a conversar com seus vizinhos de fronteira, adotou a frase como se fosse da família.

Quem percorre a Campanha sabe que o espanhol nunca foi um idioma distante. Sempre esteve presente nas estâncias, nas tropas, nos negócios e até nas amizades construídas de um lado e de outro da divisa. Não era raro um gaúcho misturar português e espanhol na mesma conversa, sem perceber.

Talvez por isso tanta gente pense que o ditado seja gaúcho.

Outros acreditam que ele seja guarani, principalmente porque no Paraguai o espanhol convive naturalmente com a língua dos povos originários. Mas não é.

O provérbio é espanhol.

O que aconteceu foi algo muito interessante: a cultura da fronteira o abraçou de tal maneira que ele passou a fazer parte do nosso jeito de falar.

E isso diz muito sobre quem somos.

O gaúcho sempre teve respeito pelos mistérios da vida.

Não porque acreditasse em tudo.

Mas porque aprendeu, desde cedo, que existem coisas que merecem ser ouvidas antes de serem julgadas.

Quem nunca escutou falar do Boitatá riscando a noite?

Da Salamanca do Jarau, onde realidade e fantasia parecem caminhar lado a lado?

Do Negrinho do Pastoreio ajudando quem perdeu o rumo?

Das benzedeiras que curavam mais pela fé do que pelo remédio?

Pouco importa se cada história aconteceu exatamente como foi contada.

O que importa é que elas ajudaram a formar o imaginário do nosso povo.

São pedaços de uma herança que não está guardada em museus, mas na memória de quem gosta de contar e de quem ainda para para escutar.

Vivemos um tempo em que quase tudo precisa de fotografia, documento ou vídeo para ser considerado verdadeiro. Talvez seja por isso que os antigos causos despertem tanto encanto. Eles nos lembram que a cultura também é feita de lembranças, de símbolos e da imaginação de um povo.

O velho ditado das bruxas nunca foi apenas sobre bruxas.

Ele fala da prudência de quem sabe que nem tudo pode ser explicado na hora.

Fala do respeito pelas histórias dos mais velhos.

Fala da curiosidade que nos move a perguntar, pesquisar e preservar aquilo que recebemos das gerações anteriores.

No fundo, talvez seja essa a verdadeira magia.

Não a das bruxas.

Mas a da tradição.

A capacidade que um simples provérbio tem de atravessar séculos, cruzar continentes e encontrar um lugar definitivo na alma do povo gaúcho.

Então, da próxima vez que alguém repetir a velha frase, experimente ouvi-la com outros ouvidos.

Talvez você descubra que ela fala menos sobre o sobrenatural e muito mais sobre nós mesmos.

Porque a cultura é assim.

Ela viaja.

Ela muda.

Ela cria raízes.

E, quando percebemos, já faz parte da nossa história como se sempre tivesse estado aqui.

 

Até o próximo Chasque, e que nunca nos falte a curiosidade de perguntar de onde vieram as palavras que carregamos na ponta da língua, porque muitas vezes, elas contam a história de um povo inteiro.

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