Porque me chamam de Tapes
Tem pergunta que atravessa o tempo feito o vento minuano. Passa de boca em boca, de geração em geração, sem nunca perder a força. Em qualquer roda de chimarrão, numa conversa de galpão ou mesmo entre os mais novos que começam a se interessar pela história da terra onde nasceram, cedo ou tarde alguém pergunta:
— Mas, afinal, por que nossa cidade se chama Tapes?
A resposta não cabe em uma única frase. Ela está espalhada entre documentos antigos, pesquisas históricas, tradições populares e, principalmente, na memória do nosso povo.
Foi justamente essa memória que o saudoso poeta, Trovador das Três Fronteiras, Paulo Martins, soube transformar em versos. Em sua poesia, ele percorre a história tapense como quem caminha devagar pela Sanga da Charqueada, olhando cada detalhe da paisagem e ouvindo o que o passado ainda tem para contar.
Antes mesmo da existência do município, estas terras eram conhecidas como Sesmaria de Nossa Senhora do Carmo, uma extensa área concedida durante o período colonial português. Era uma região privilegiada pelos campos férteis, pela abundância de água e pela proximidade da Lagoa dos Patos, fatores que favoreceram a criação de gado e, posteriormente, o desenvolvimento das primeiras charqueadas.
Naquele tempo, o Rio Grande ainda dava seus primeiros passos como província produtora de charque. A carne salgada era um dos produtos mais importantes da economia sul-rio-grandense. Alimentava tropas militares, abastecia outras províncias do Império e movimentava fortunas. Enquanto cidades como Pelotas se tornavam grandes centros charqueadores, pequenas unidades também surgiam ao longo da Lagoa dos Patos. Uma delas foi justamente aqui, onde hoje está Tapes.
É nesse cenário que aparece uma das figuras mais importantes da história local:
Patrício Vieira Rodrigues.
Segundo registros históricos preservados pelo município e pela tradição oral, Patrício instalou uma charqueada às margens da Sanga da Charqueada. A localização não foi escolhida por acaso. A pequena sanga permitia o embarque da produção diretamente para a Lagoa dos Patos, facilitando o transporte do charque até outros mercados.
O poeta descreve esse momento com a simplicidade de quem conhece bem a alma do interior:
"Aqui nas sombras das árvores
Nesta sanga abandonada
Foi a casa e a charqueada
Do fundador da cidade..."
Mais do que versos, essas palavras ajudam a preservar uma memória que dificilmente aparece nos grandes livros de história.
Mas é justamente quando surge a pergunta sobre o nome da cidade que começam as diferentes interpretações.
Durante muito tempo, acreditou-se que o nome Tapes fosse uma referência direta aos indígenas tapes, pertencentes ao grande tronco guarani. Esses povos habitaram diversas regiões do atual Rio Grande do Sul, especialmente na área central e noroeste do estado, muito antes da chegada dos europeus.
Os próprios cronistas espanhóis dos séculos XVI e XVII utilizavam a expressão "Província dos Tapes" para designar uma vasta região ocupada por esses indígenas. Posteriormente, os padres jesuítas fundariam ali diversas reduções missioneiras.
No entanto, as pesquisas históricas mais recentes indicam que não existem evidências consistentes de aldeamentos tapes exatamente na área onde hoje se localiza o município de Tapes. A ocupação indígena existiu em diferentes pontos da região sul, mas não há comprovação de uma presença permanente da etnia tape nas margens da atual cidade.
O próprio poeta faz questão de registrar essa conclusão em sua poesia:
"Não achei tribo nem índios
Vou de volta pra charqueada..."
O verso não nega a existência do povo tape na história do Rio Grande do Sul. Apenas reconhece que, especificamente na formação da cidade, outras evidências parecem falar mais alto.
É aí que entra uma segunda versão, talvez a mais conhecida entre os antigos moradores.
Conta a tradição que Patrício Vieira Rodrigues possuía uma embarcação chamada Tapes. Era nela que parte da produção da charqueada seguia viagem pela Lagoa dos Patos.
O barco acabou se tornando uma referência tão importante para quem vivia na região que o nome passou a identificar o lugar.
Embora não existam documentos definitivos que comprovem essa origem de maneira absoluta, a narrativa permaneceu viva graças à tradição oral, transmitida de pais para filhos durante muitas décadas.
Curiosamente, uma versão não exclui a outra.
A palavra Tapes, de fato, possui origem guarani. Diversos estudiosos da língua indicam que ela está relacionada aos antigos povos tapes e, em alguns estudos linguísticos, aparece associada ao significado de "caminho", "passagem" ou "trilha". É uma palavra profundamente ligada à circulação, aos deslocamentos e aos percursos dos povos indígenas.
Se o barco realmente recebeu esse nome, muito provavelmente ele próprio já carregava uma palavra indígena bastante conhecida na época.
Assim, a história parece formar um círculo perfeito; a palavra nasceu entre os povos originários; batizou uma embarcação; a embarcação ajudou a construir uma comunidade e a comunidade transformou aquele nome em cidade.
Enquanto os historiadores procuram documentos, a poesia preserva aquilo que os papéis muitas vezes não conseguem guardar: o sentimento de pertencimento.
O poeta também chama atenção para outro aspecto importante da formação tapense: O trabalho nas charqueadas.
Era um trabalho pesado, duro e profundamente marcado pela utilização da mão de obra escravizada. Homens e mulheres negros sustentaram boa parte da economia gaúcha durante o século XIX, vivendo em condições extremamente difíceis.
Em seus versos, o poeta lembra das moradias simples construídas com palha de butiazeiro e também registra uma narrativa bastante conhecida na tradição local: após a morte de Patrício, seus escravizados teriam recebido a liberdade e pequenas porções de terra.
Embora alguns detalhes dessa história ainda sejam objeto de pesquisa histórica, ela permanece viva como parte da memória popular tapense.
Outro personagem lembrado pelo poeta é Brígida Calderón, esposa do coronel Patrício, figura importante na organização da propriedade e na continuidade da história local.
Hoje, quem percorre a Rua Professor Luiz Vieira, próximo à esquina com a Rua João Athaliba Wolff, ainda encontra vestígios das antigas construções da primeira charqueada. Restam ruínas de pedra, algumas marcas do tempo e a certeza de que muito do que existiu ali permanece escondido sob o solo, esperando pesquisas arqueológicas e históricas.
São ruínas discretas, para quem passa apressado, talvez não digam muita coisa.
Mas, para quem conhece a história, cada pedra guarda um pedaço da formação de Tapes.
É justamente por isso que preservar a memória importa, uma cidade não vive apenas de ruas, prédios e documentos públicos.
Ela vive das histórias contadas pelos mais velhos; das fotografias guardadas nas gavetas; dos versos escritos pelos poetas; dos pesquisadores que dedicam anos procurando respostas e do orgulho que cada tapense sente ao dizer de onde veio.
Talvez nunca exista um documento capaz de encerrar definitivamente a discussão sobre a origem do nome Tapes, e pensando bem, talvez nem seja necessário.
Porque existem perguntas cuja maior riqueza está justamente na busca pelas respostas.
Entre a palavra guarani, a embarcação de Patrício Vieira Rodrigues, a antiga charqueada e a poesia de Paulo, uma verdade permanece inabalável: nossa cidade nasceu da força do trabalho, da coragem dos primeiros moradores, da importância da Lagoa dos Patos e da memória preservada por quem nunca deixou essa história morrer.
Como gaúchos, aprendemos desde cedo que um povo sem memória perde o rumo do próprio caminho.
E talvez seja exatamente isso que a palavra Tapes continue nos ensinando.
Um caminho. Não apenas um caminho de terra ou de água; mas um caminho de identidade, um caminho de pertencimento, um caminho que continua sendo trilhado por todos nós.


