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Aceguá, por que Doble Chapa?

Por: Sam Martin de Araujo Publicado em 06/07/2026 às 07:00
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Há lugares que conhecemos pelos mapas. Outros, pelos livros de História. Mas existem aqueles que primeiro chegam até nós pelas lembranças de quem os viveu. Aceguá, para mim, sempre foi assim.

Quando eu era guri, gostava de ouvir as conversas dos mais velhos. Meu saudoso pai, trovador, músico e improvisador, costumava recordar suas andanças por Bagé, a Rainha da Fronteira, e pelas localidades vizinhas. Em outras ocasiões, quem trazia essas lembranças eram os amigos da família, residentes daqui da minha cidade natal, Marcos Vinicius (Duda) e Surama Jenisch. O que mais me marcava não eram apenas as histórias, mas o carinho e o respeito com que falavam dele. Recordavam o trovador, o homem dos versos improvisados, mas, acima de tudo, o amigo que conquistava as pessoas pela simplicidade e pela palavra sincera.

Naquele tempo eu apenas escutava.

Com o passar dos anos, aquelas conversas despertaram em mim a curiosidade de compreender melhor a história da nossa fronteira. E uma pergunta passou a me acompanhar:

Por que Aceguá é conhecida como "Doble Chapa"?

Quem chega à cidade pela primeira vez logo percebe que ela foge do comum. Basta atravessar uma rua para sair do Brasil e entrar no Uruguai. De um lado está o município brasileiro de Aceguá; do outro, a vila uruguaia de Aceguá. Mudam a bandeira, a legislação e a administração pública, mas a rotina continua praticamente a mesma.

As famílias convivem diariamente. O comércio atende brasileiros e uruguaios. O português se mistura ao espanhol, formando aquele jeito peculiar de falar típico da fronteira. Ali, a divisa internacional existe, mas raramente separa as pessoas.

Foi justamente dessa convivência que nasceu a expressão

"doble chapa".

Na linguagem popular da fronteira, ela representa muito mais do que duas nacionalidades. É a maneira de definir uma comunidade que aprendeu a viver entre dois países, preservando laços de amizade, parentesco, trabalho e cultura. Em Aceguá, a fronteira nunca foi apenas um limite geográfico; ela sempre foi um ponto de encontro.

Mas a história da cidade começa muito antes da existência de Brasil e Uruguai.

A origem do nome Aceguá desperta o interesse de pesquisadores há muitos anos. Segundo estudos históricos e linguísticos, deriva das formas

Yaceguay ou Yace-guab, da língua tupi-guarani.

Como acontece com diversos topônimos indígenas, existem diferentes interpretações para seu significado.

Uma delas define Aceguá como

"terra alta e fria",

descrição que combina perfeitamente com seus cerros e com o clima característico da Campanha Gaúcha.

Outra interpretação aponta para

"lugar de descanso eterno",

indicando que os povos indígenas poderiam utilizar aquelas elevações como locais de sepultamento ou cerimônias, por oferecerem ampla visão da paisagem.

Há ainda quem traduza o nome como

"seios da lua",

numa interpretação poética inspirada nas formas suaves dos cerros que dominam o horizonte da região.

Nenhuma dessas versões anula a outra. Pelo contrário. Todas ajudam a compreender a riqueza cultural que envolve o nome Aceguá.

Como toda terra de fronteira, porém, a cidade também guarda histórias que vivem na tradição oral.

Uma das mais conhecidas está ligada ao antigo

Camino de los Quileros.

Muito antes da instalação das aduanas e dos postos de fiscalização, esse caminho servia de passagem para homens conhecidos como quileros. Eram viajantes que cruzavam a fronteira transportando mercadorias entre o Uruguai e o Brasil, muitas vezes escapando dos controles fiscais. Em muitos casos, não agiam apenas por lucro, mas como forma de sustento em uma região onde a fronteira sempre foi parte da vida cotidiana.

A importância desse caminho foi eternizada pelo compositor uruguaio Osiris Rodríguez Castillos, autor da consagrada canção Camino de los Quileros, uma das maiores obras do folclore rio-platense. Em seus versos, o compositor retrata a coragem desses homens e menciona a Serra de Aceguá, transformando a paisagem fronteiriça em símbolo da cultura do Pampa.

A história de Aceguá também se confunde com a própria formação do sul do continente.

Muito antes da chegada dos europeus, grupos indígenas já utilizavam aquelas terras como área de caça, observação e deslocamento. No século XVIII, a região tornou-se cenário das disputas entre as coroas portuguesa e espanhola, motivadas pelos acordos de limites e pelas transformações provocadas pelo Tratado de Madri.

Foi por esses campos que ecoou a resistência liderada por Sepé Tiaraju, um dos personagens mais marcantes da história missioneira.

Mais tarde, em 1773, tropas comandadas por Juan José de Vértiz y Salcedo cruzaram a região durante as operações relacionadas ao Forte de Santa Tecla.

Em 1811, foi a vez de Dom Diogo de Sousa marchar em direção a Montevidéu.

Em 1893, os campos de Aceguá voltaram a testemunhar a passagem de Gumercindo Saraiva, durante a Revolução Federalista.

A definição moderna da fronteira veio com o Tratado de Modificação de Fronteiras, firmado entre Brasil e Uruguai em 1913. Nos anos seguintes, comissões binacionais realizaram a demarcação definitiva dos limites, culminando na instalação dos marcos fronteiriços. Entre eles, o Marco nº 1, inaugurado em 1915, simbolizou uma nova etapa de entendimento e cooperação entre os dois países.

Hoje, Aceguá continua sendo uma importante porta de entrada entre Brasil e Uruguai. Sua economia permanece fortemente ligada à pecuária, ao comércio e à vocação fronteiriça que sempre caracterizou a região.

Mas talvez sua maior riqueza não esteja nos números.

Está nas pessoas.

Na fronteira existe um velho costume de dizer que quem nasce em Aceguá não aprende primeiro a falar português ou espanhol. Aprende a falar fronteiriço. As palavras atravessam a divisa com a mesma facilidade que os moradores. Um "bom dia" encontra naturalmente um "buen día". O chimarrão passa de uma mão brasileira para outra uruguaia sem pedir passaporte. A amizade vale mais do que qualquer documento.

Talvez seja justamente esse o verdadeiro significado de ser doble chapa.

Não é viver dividido entre dois países.

É ter o privilégio de pertencer aos dois lados de uma mesma história.

Aceguá ensina uma lição rara em tempos de tantas divisões. Existem fronteiras desenhadas pelos governos e existem fronteiras desenhadas pelo coração. A primeira aparece nos mapas. A segunda desaparece na hora da prosa, do aperto de mão, do chimarrão compartilhado e do respeito entre vizinhos.

E talvez seja essa a maior riqueza daquela terra: mostrar que duas bandeiras podem tremular ao vento sem jamais impedir que um mesmo povo caminhe lado a lado.

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